domingo, 16 de junho de 2013


Crise da Racionalidade




            Não pretendo justificar o comportamento humano, nem dar uma resposta às questões que permeiam nosso dia-a-dia, mas sim entender o porquê dessa crise que vivemos e fazer uma reflexão sobre nosso papel como educador.
            É fato que vivemos um tempo de grandes conflitos, o qual eu denomino de crise existencial, pois o mesmo homem que, tempos atrás encontrava explicações em Deus, para suas mais diversas emoções, hoje percebe-se sozinho em um mundo que teoricamente pode resolver tudo através da Ciência.
            Não querendo minimizar as grandes descobertas e a evolução tecnológica, a qual faz parte do nosso cotidiano, questiono-me sobre até que ponto a própria Ciência poderá resolver conflitos pessoais e individuais.
            Chegamos em uma era em que, o comportamento humano é analisado minuciosamente. São diagnosticados inúmeras doenças e estas são tratadas com uma variedade imensurável de medicamentos, os quais além de causar dependência, muitas vezes deslocam os indivíduos para uma dimensão irreal.
            Vivemos em um tempo em que parece bastante fácil e apropriado diagnosticar o problema do outro e assim, criamos uma falsa ilusão de que o conhecemos, porém penso que essa é uma questão bem mais complexa.
            Como educadora, percebo diariamente uma grande insatisfação dos professores, alunos, pais e de todos os envolvidos na relação ensino-aprendizagem.
            Percebo claramente uma transferência de responsabilidades e por vezes um desapego com a essência humana.
            Escuto relatos de professores, os quais procuram fazer um trabalho de qualidade, porém, diante da falta de interesse do aluno em função de vários aspectos, procuram então a ajuda da família do educando e esta, por sua vez, às vezes parece omissa ou impotente.
            Observando esses relatos, entre tantos outros que fazem parte do cotidiano escolar, arrisco-me a acreditar que, vivenciamos de fato uma crise existencial, onde nem mesmo a Ciência será capaz de desmistificar.
            Não penso que o educador, o educando ou a família sejam culpados, mas acredito que a maior característica dessa tal modernidade, seja a falta de conhecer, mas não o outro e sim a si mesmo.
            Passamos a vida tentando conhecer o outro, porém não conhecemos a nós mesmos. Não abrimos mão do nosso tempo para saciar a carência que temos daquilo que é essencial à vida humana: o eu.
            Nesse mundo capitalista em que vivemos, as pessoas se dedicam a viagens, passeios, festas, compram coisas o tempo todo, passam em concursos e buscam incessantemente a felicidade, o sentido para suas vidas. Se relacionam com várias pessoas e procuram no outro a satisfação que somente encontrarão em si mesmas.
            Penso que enquanto o ser humano não dialogar com seu próprio eu interior, ele continuará trilhando um caminho de incertezas e por mais que esteja na companhia de outras pessoas, sentir-se-á sempre sozinho.
            Enquanto ele não entender o motivo da sua existência, o homem não perceberá que a vida é uma passagem e que suas ações poderão deixar marcas naqueles que por aqui permanecerem.
            Numa visão política e social, penso que em função dessa crise, a humanidade caminha a passos largos para uma degradação de valores, onde passa a valer cada vez mais, a lei de quem detém o poder.
            Não precisamos mais de bombas atômicas, exércitos nas ruas, nem toques de recolher. A grande massa está se exterminando, uns aos outros.
            Há alguns anos atrás, na aula de Filosofia de Educação, com o professor Marcelo Rezende Guimarães, foi proposto que lêssemos o texto “Educação após Auschwitz”, de Theodor Adorno. Um texto bastante crítico, polêmico e que nos reporta a um fato histórico em que gostaríamos de esquecer: o Holocausto.
            Adorno nos alerta para uma questão crucial: que tipo de ser humano queremos ser e formar, pois, pior do que a consumação da barbárie, são as razões que criaram a possibilidade para que ela viesse a acontecer.
            Nos tornamos seres irracionais diante da nossa racionalidade. Lutamos como em uma guerra, por dinheiro, beleza, posição social. Não respeitamos nossa saúde física e mental e o próximo é nada mais do que o próximo.
            Faço essa alusão ao texto de Adorno e infelizmente, preciso admitir que os genocídios continuam a acontecer: nas escolas, nas famílias, na sociedade em geral. E nesse rol de acontecimentos, onde a ética é colocada em segundo plano, somos ao mesmo tempo vítimas e também vilões.


                                                                                                                                           Valquíria Leão

27/04/2013




Um comentário:

  1. Não queremos formar ser humano nenhum, estamos preocupados com o dia-a-dia. Como disse um amigo meu, a boa vontade nos gestos não é do ser humano. Quando aparece é, infelizmente, uma honrosa exceção. Bem, eu diria, nesse contexto que, se não podemos ir pela regra, que as exceçöes se unam e mostrem a excepcionalidade dos seus gestos, no melhor sentido da palavra: mostrem que vale a pena resgatar justamente os valores que se degradam a olhos vistos.
    A ciência pode encontrar padrões e explicar conceitos. É o homem que deve ler os livros e tentar entender, com a sua própria visão, seus semelhantes. Não há fórmula para a singularidade. Nem mesmo a física foi capaz de explicá-lá, quanto mais a imprecisão inerente às ciências humanas. Teorias, para aquilo que é único, são o atalho, jamais o caminho em si.

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