domingo, 16 de junho de 2013


Educação após Auschwitz
 

Theodor W. Adorno


Algumas considerações
 

            Adorno acredita que através da Educação, possamos evitar que Auschwitz torne a acontecer, pois, segundo ele, é através da primeira infância e do contato com o meio que o indivíduo forma sua verdadeira identidade.
            Nesse âmbito, é importante ressaltar que o educador precisa repensar sua prática pedagógica a fim de não assumir um papel autoritário, manipulador. Este comportamento faz com que o ser humano reprima seus medos, seus sonhos, precisando tornar-se forte e corajoso diante de uma sociedade que valoriza essa característica. O medo reprimido faz com que o indivíduo aprenda a torturar e fazer com que outras pessoas também sintam dor, assim orgulhando-se do seu feito numa espécie de narcisismo desenfreado.
            Numa visão tecnicista o caráter manipulador coisifica as pessoas, fazendo com que sua consciência torne-se coisificada. O indivíduo manipulado apenas atende à ordens, não fazendo uso racional de suas ações.
            O avanço tecnológico que deveria tornar-se um meio para uma vida digna, acaba por ser um fim em si mesma. A técnica ocupa um espaço tão grande que torna as pessoas tecnológicas.
            O autor cita como exemplo as pessoas que projetaram o sistema ferroviário para conduzir as vítimas de Auschwitz com maior rapidez e fluência. Não usaram o conhecimento tecnológico como um meio para uma vida digna, mas sim como um fim em si mesmo, tornando irrelevante a função para a qual foi projetada tal ferrovia.
            Numa questão humanística e espiritual, estas pessoas são despidas de amor, justamente por possuírem uma consciência coisificada, onde representam o único amor que têm por máquinas e equipamentos.
            Na visão do autor, a tecnologia e o autoritarismo, projetam pessoas incapazes de amar, porque são induzidas a lutarem apenas por seus próprios interesses.
            O ser humano precisa ter consciência das razões pela qual assume determinados comportamentos, pois a tomada de consciência torna-se mais apropriada do que o amor propriamente dito. Uma criança que não tem esclarecimento dos fatos relativos ao mundo que a cerca, torna-se ingênua e com facilidade tornar-se-á um ser facilmente manipulado.
            O grande anseio é que as medidas educacionais possam fazer com que seres humanos dignos não cumpram silenciosamente as ordens determinadas por assassinos de gabinete ou ideólogos, mas sim tenham a consciência de sua ação, para que não findem com sua própria identidade.
            À medida que o indivíduo torna-se apenas cumpridor de ordens sem fazer questionamentos sobre sua execução, ele estará também contribuindo para que as barbáries possam se repetir e sem receio algum, deixará de preocupar-se com seu compromisso com a ética, pois tornou-se tão dependente de normas que sua consciência coisificada o isentará de qualquer responsabilidade.
            Numa ordem social, Adorno afirma que vivemos uma certa “claustrofobia do mundo civilizado”, pois ao mesmo tempo em que as pessoas se integram cada vez mais à civilização, elas procuram fugir, visto que a própria civilização desagrega os indivíduos, aniquilando com seu potencial de resistência, identidade e suas qualidades, tornando-os agressivos e irracionais.
            Segundo Theodor Adorno, somente a autonomia, o poder para a reflexão, a autodeterminação e a tomada de consciência seriam o princípio para o não acontecimento de Auschwitz novamente. É preciso que as pessoas reflitam sobre suas atitudes a fim de evitar barbáries contínuas e possam dar sentido a suas vidas, valorizando seu semelhante.

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Reflexão crítica


            Como educadora preciso acreditar na mudança do ser humano e portanto, afirmo que “Educação após Auschwitz”, não poderia ter outro título, senão este. Nós educadores, temos um poder imensurável nas mãos, que é o de levar esclarecimento às pessoas que cegamente fazem parte dessa sociedade que, ao mesmo tempo que é tão plural, mostra-se tão individualista.
            O ser humano está em busca de sua identidade, a qual, silenciosamente tem sido esmagada por uma globalização que promete uma vida mais digna, mas que ao contrário corrompe com a essência humana.
            Hoje vivemos uma era em que a informática, por exemplo, deveria ser um meio para que pudéssemos realizar nossas atividades com maior eficácia e rapidez, a fim de que nos sobrasse tempo para desfrutar daquilo que é indispensável à vida humana: as relações interpessoais e o contato com a natureza. No entanto, ela torna-se a cada dia um fim em si mesma. As pessoas passam horas em frente ao computador, e na maioria das vezes seus contatos são virtuais. As relações humanas estão cada vez mais precárias, o diálogo é racionado e a qualidade de vida piora a passos largos.
            Numa visão capitalista, as pessoas trabalham incansavelmente para adquirir coisas deixando de dar atenção àqueles que fazem parte de sua vida afetiva, pois precisam fazer parte de uma civilização homogênea. Desta forma, com o objetivo de suprir sua ausência, elas buscam a solução dos problemas através de bens materiais, os quais lhes custam mais um boa quantia de trabalho dedicado.
            E aqueles, os quais, por inúmeros motivos não tiveram a oportunidade de ingressar a esse mundo capitalista na posição de consumidor, só os resta revoltarem-se contra o sistema tornando-se indivíduos a margem da sociedade, colaborando, muitas vezes para o aumento gradativo da violência.
            As escolas citam em seus Projetos Político Pedagógicos que pretendem formar cidadãos críticos e libertos, porém preparam os indivíduos para o mercado de trabalho e nada mais. As pessoas são, de fato, formadas para o mercado de trabalho e não para o mercado de conhecimento de si e do mundo. Elas cumprem exatamente as atribuições de seus cargos e não questionam sobre valores. Assim tornam-se completamente livres de qualquer compromisso, pois executam apenas ordens de superiores.
            Fazendo uma análise dessa estrutura, penso que a educação poderá sim, trazer mudanças positivas para uma tomada de consciência em relação a essa crise em que vivemos, mas acredito que antes de focar nossas expectativas no educando, não podemos esquecer que é através do educador que conseguiremos aliados para que tal mudança se efetive.
            Acredito que o educador precisa ser valorizado enquanto ser humano, a fim de que sua postura mude em relação à sua prática educativa. Ele precisa conhecer-se e acreditar em si próprio, evitando assim que barbáries tornem a acontecer e que crianças sejam vítimas de ranços ideológicos.
            Penso que o educador é o único profissional que ainda tem autonomia para transformar essa realidade, pois sua função o permite dialogar, criar, orientar e fazer com que os educandos estejam cientes do mundo que os cerca, tornando-se verdadeiramente críticos.
            Desacreditar, é uma característica desse mundo de incertezas que vivemos, mas penso que, a medida que soubermos administrar uma instituição, de forma coerente e justa, o caminho começa então a ser construído para uma longa caminhada em rumo à mudança.


Valquíria Leão
05/05/2013

Um comentário:

  1. Como eu disse anteriormente, é possível ser rico e ao mesmo tempo miserável. O capitalismo em si, eu digo isso com frequência, não é o problema, nenhum sistema é bom ou ruim, até que seja aplicado pelos homens; O problema é evidente: os homens são o único meio de aplicar os sistemas econômicos até que se prove que há alguma outra espécie entre nós. E eles os aplicam MUITO mal.
    Tanto no capitalismo quanto no socialismo, os dois maiores sistemas desde o final do século XIX, a mentalidade administrativa, fria em seus conceitos, por mais que se camufle, é como as teorias econômicas que regem qualquer instituição maior: aproxima-se da psicopatia, quando não é declaradamente organizada dessa forma. É o que permite, aliás, que psicopatas se saiam tão bem nesse meio.
    Mais do que pensar no sistema como essência, é preciso ver como estruturamos a nossa atuação. Sem humanitarismo continuaremos atrelados a bolhas econômicas e a campos de concentração para aqueles que não aceitam um suposto bem comum... De poucos!

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