domingo, 16 de junho de 2013


Algumas considerações sobre o filme “A Onda” 


            Baseado em fatos reais, o filme “A Onda”, dirigido por Dennis Gansel, relata a história de um professor que, ao ministrar o curso sobre autocracia a um grupo de jovens, propõe uma experiência, a qual tem por objetivo provar para os alunos o quanto ainda é possível uma sociedade aderir a esta forma de governo.
            Durante a experiência, fatores psicológicos e socioculturais são fortemente externados, possibilitando que os indivíduos pertencentes ao grupo, passem a apresentar um comportamento de superioridade  em relação aos outros.
            Para fazer uma análise mais aprofundada sobre o comportamento assumido pelos alunos e também pelo professor, o qual, aos poucos deixa se envolver pelo poder, senti necessário fazer uma leitura sobre questões relativas à psicanálise e também sobre questões abordadas por Adorno e Bauman, cujos autores nos trazem uma visão mais crítica da modernidade.

Considerações Gerais 

            O comportamento humano é influenciado por fatores sociais, políticos, psicológicos e culturais. Sendo assim, todos nós seguimos um padrão de conduta que é fortemente pautado não só por questões externas, mas também por elementos que constituem a nossa essência humana e que mesmo não intencionalmente, agregam valores a nossa personalidade. A agressividade, como exemplo da nossa condição, é um sentimento que apresenta uma certa normalidade, pois tendemos a reagir inconscientemente para obtermos respostas.
            Os estudos de Freud sobre as pulsões, foram importantes para que possamos entender como estes sentimentos se processam e porque os indivíduos apresentam uma determinada conduta frente à sociedade. Para Freud as pulsões de vida e de morte não estão localizadas no corpo e nem no psiquismo, mas sim entre eles. Tendo como base esta afirmação, a psicanálise nos traz o esclarecimento de que é este conflito que gera um comportamento que vai além da agressividade, fazendo com que haja uma repulsa por aquele que, culturalmente torna-se diferente e ameaçador a sua espécie.
            O fato de um ser matar o outro para alimentar-se, é um exemplo básico desse conflito, pois ao mesmo tempo que a alimentação é necessária para a sobrevivência, torna-se indispensável que se acabe com a vida de outro ser. De acordo com os estudos de Freud, este sentimento é inerente à constituição humana e é a partir dos fatores externos que o ser humano, fazendo uso de sua razão, deveria discernir entre o certo e o errado.
            Nesse contexto onde o diferente pode tornar-se ameaçador, é passível entender porque uma sociedade pode aderir mais facilmente a um regime autocrático, onde apresenta como princípio a padronização dos valores e onde as diferenças são extintas.
            O filme “A Onda”, mostra claramente o quanto um grupo é capaz de aderir a autocracia, desde que um líder consiga fortalecer e despertar estes sentimentos de rejeição a tudo ou a todos que não se adaptam ou não passam pelo crivo da sociedade. Os alunos, passam a sentirem-se superiores em relação aos outros, pois partilham de um regime fechado, padronizado, disciplinado, no qual são inspirados apenas pelo objetivo de fazerem parte de uma comunidade.
            O objetivo do professor era mostrar para os alunos daquela classe que é possível um grupo aderir facilmente a uma forma de governo que tem como princípios básicos o controle, a supervisão e a disciplina através de uma figura modelo que detém o poder. Estabelecendo uma analogia entre o filme e a citação de Adorno, em “Educação após Auschwitz , a figura modelo representada pelo professor, produziu um grupo de indivíduos que, embasados por um discurso fundamentalista, tornou-se “coisificado”. Eles apenas cumpriram ordens e motivados pela ideia de tornarem-se uma comunidade perfeita, excluíram todos os que não enquadravam-se ao sistema.
            Outra questão também abordada por Adorno é o fato de um indivíduo que ao reprimir seus medos, torna-se tão capaz como qualquer outro, de assumir um comportamento violento e severo. O personagem “Tim”, representado pelo ator Frederick Lau, demonstra visivelmente este comportamento de submissão e severidade, a ponto de eliminar com sua própria vida. O fato de cometer o suicídio também é uma ilustração daquilo que Adorno chama de “claustrofobia do mundo civilizado”. Tim vivia a margem da sociedade e ao ver que o grupo do qual ele passou a fazer parte, estava de dissipando, preferiu deixar de viver a ter que voltar a sua origem.
            Segundo Bauman, em “Modernidade Líquida”, neste mundo o qual encontra-se em constante mudança, somos desprovidos de uma identidade herdada e isso nos coloca na obrigação de construir nossa própria identidade, começando do zero e redefini-la ao longo da vida, acompanhando as transformações da sociedade. Essa, sem dúvida é uma característica do mundo contemporâneo, onde existe uma descrença no futuro e uma eminente ausência de valores.
            O grupo de alunos submetidos à experiência do professor Rainer, além de apresentar estas características tão peculiares do mundo moderno e sofrerem as dores típicas da adolescência, não tinham um ideal e tampouco uma identidade.
            Nos reportando ao Holocausto, que foi uma barbárie a qual continua latente em nossa sociedade, penso que Hitler não criou, mas sim fez uso da ignorância de um povo, o qual iludido por discursos retóricos, acreditou na possibilidade de acabar com o que era diferente aos seus olhos, para que o mundo pudesse tornar-se esteticamente perfeito. Parafraseando Bauman, “a morte daquelas pessoas do Holocausto não foi um trabalho de destruição, mas sim de criação.”
            A partir de cenas que retratam a realidade, “A Onda” nos motiva a repensar nossa prática pedagógica, pois nós educadores, somos na maioria das vezes a única referência para alguns alunos, os quais nos veem como verdadeiros exemplos de vida. Sendo assim, cabe a nós conhecer o educando para que possamos ter a segurança e a certeza do tipo de sentimento que almejamos despertar em cada indivíduo.
            Em suma, refletir sobre este filme é uma possibilidade de trabalharmos com as diferenças . É acreditarmos, que enquanto educadores, temos uma responsabilidade imensurável de ajudar a construir uma história onde a diversidade de opiniões e a pluralidade sejam respeitadas, não apenas em discursos demagógicos, mas principalmente na prática cotidiana, colocando em primeiro plano a ética profissional e a valorização humana.

Valquíria Leão
19/05/2013

Um comentário:

  1. Enquanto houver inimigos no imaginário coletivo, sempre haverá espaço para as maiores atrocidades. A história recente desse filme mostra que é questão de se ter alguém com tamanho carisma e ambição tirânica para fazer isso. Graças a Deus o mundo está relativamente preparado para dar um fim a esse tipo de abuso de poder.
    A sociedade evolui, mas não convém acreditarmos tão piamente na nossa razão contemporânea. Basta pensar no que nossos antepassados tinham como certeza e veremos quão vítimas e cúmplices do nosso tempo somos. As certezas são das maiores armadilhas da idiotice humana...
    O pior é que essa estupidez já nos levou aos trilhos nazistas. As pessoas acham que os inimigos imaginários são apenas justificativas para montar palanques, mas podem derrubar o palco com um tsunami de realidade.

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