Algumas considerações sobre o filme “A Onda”
Baseado em fatos reais, o filme “A
Onda”, dirigido por Dennis Gansel, relata a história de um professor que, ao
ministrar o curso sobre autocracia a um grupo de jovens, propõe uma
experiência, a qual tem por objetivo provar para os alunos o quanto ainda é possível
uma sociedade aderir a esta forma de governo.
Durante a experiência, fatores
psicológicos e socioculturais são fortemente externados, possibilitando que os
indivíduos pertencentes ao grupo, passem a apresentar um comportamento de
superioridade em relação aos outros.
Para fazer uma análise mais
aprofundada sobre o comportamento assumido pelos alunos e também pelo
professor, o qual, aos poucos deixa se envolver pelo poder, senti necessário
fazer uma leitura sobre questões relativas à psicanálise e também sobre
questões abordadas por Adorno e Bauman, cujos autores nos trazem uma visão mais
crítica da modernidade.
Considerações Gerais
O comportamento humano é
influenciado por fatores sociais, políticos, psicológicos e culturais. Sendo
assim, todos nós seguimos um padrão de conduta que é fortemente pautado não só
por questões externas, mas também por elementos que constituem a nossa essência
humana e que mesmo não intencionalmente, agregam valores a nossa personalidade.
A agressividade, como exemplo da nossa condição, é um sentimento que apresenta
uma certa normalidade, pois tendemos a reagir inconscientemente para obtermos
respostas.
Os estudos de Freud sobre as pulsões,
foram importantes para que possamos entender como estes sentimentos se processam
e porque os indivíduos apresentam uma determinada conduta frente à sociedade.
Para Freud as pulsões de vida e de morte não estão localizadas no corpo e nem
no psiquismo, mas sim entre eles. Tendo como base esta afirmação, a psicanálise
nos traz o esclarecimento de que é este conflito que gera um comportamento que
vai além da agressividade, fazendo com que haja uma repulsa por aquele que,
culturalmente torna-se diferente e ameaçador a sua espécie.
O fato de um ser matar o outro para
alimentar-se, é um exemplo básico desse conflito, pois ao mesmo tempo que a
alimentação é necessária para a sobrevivência, torna-se indispensável que se
acabe com a vida de outro ser. De acordo com os estudos de Freud, este
sentimento é inerente à constituição humana e é a partir dos fatores externos
que o ser humano, fazendo uso de sua razão, deveria discernir entre o certo e o
errado.
Nesse contexto onde o diferente pode
tornar-se ameaçador, é passível entender porque uma sociedade pode aderir mais
facilmente a um regime autocrático, onde apresenta como princípio a
padronização dos valores e onde as diferenças são extintas.
O filme “A Onda”, mostra claramente
o quanto um grupo é capaz de aderir a autocracia, desde que um líder consiga
fortalecer e despertar estes sentimentos de rejeição a tudo ou a todos que não
se adaptam ou não passam pelo crivo da sociedade. Os alunos, passam a sentirem-se
superiores em relação aos outros, pois partilham de um regime fechado, padronizado,
disciplinado, no qual são inspirados apenas pelo objetivo de fazerem parte de
uma comunidade.
O objetivo do professor era mostrar
para os alunos daquela classe que é possível um grupo aderir facilmente a uma
forma de governo que tem como princípios básicos o controle, a supervisão e a
disciplina através de uma figura modelo que detém o poder. Estabelecendo uma
analogia entre o filme e a citação de Adorno, em “Educação após Auschwitz , a
figura modelo representada pelo professor, produziu um grupo de indivíduos que,
embasados por um discurso fundamentalista, tornou-se “coisificado”. Eles apenas
cumpriram ordens e motivados pela ideia de tornarem-se uma comunidade perfeita,
excluíram todos os que não enquadravam-se ao sistema.
Outra questão também abordada por
Adorno é o fato de um indivíduo que ao reprimir seus medos, torna-se tão capaz
como qualquer outro, de assumir um comportamento violento e severo. O
personagem “Tim”, representado pelo ator Frederick Lau, demonstra visivelmente
este comportamento de submissão e severidade, a ponto de eliminar com sua
própria vida. O fato de cometer o suicídio também é uma ilustração daquilo que
Adorno chama de “claustrofobia do mundo civilizado”. Tim vivia a margem da
sociedade e ao ver que o grupo do qual ele passou a fazer parte, estava de
dissipando, preferiu deixar de viver a ter que voltar a sua origem.
Segundo Bauman, em “Modernidade
Líquida”, neste mundo o qual encontra-se em constante mudança, somos
desprovidos de uma identidade herdada e isso nos coloca na obrigação de
construir nossa própria identidade, começando do zero e redefini-la ao longo da
vida, acompanhando as transformações da sociedade. Essa, sem dúvida é uma
característica do mundo contemporâneo, onde existe uma descrença no futuro e
uma eminente ausência de valores.
O grupo de alunos submetidos à
experiência do professor Rainer, além de apresentar estas características tão
peculiares do mundo moderno e sofrerem as dores típicas da adolescência, não
tinham um ideal e tampouco uma identidade.
Nos reportando ao Holocausto, que
foi uma barbárie a qual continua latente em nossa sociedade, penso que Hitler
não criou, mas sim fez uso da ignorância de um povo, o qual iludido por
discursos retóricos, acreditou na possibilidade de acabar com o que era
diferente aos seus olhos, para que o mundo pudesse tornar-se esteticamente
perfeito. Parafraseando Bauman, “a morte daquelas pessoas do Holocausto não foi
um trabalho de destruição, mas sim de criação.”
A partir de cenas que retratam a
realidade, “A Onda” nos motiva a repensar nossa prática pedagógica, pois nós
educadores, somos na maioria das vezes a única referência para alguns alunos,
os quais nos veem como verdadeiros exemplos de vida. Sendo assim, cabe a nós
conhecer o educando para que possamos ter a segurança e a certeza do tipo de
sentimento que almejamos despertar em cada indivíduo.
Em suma, refletir sobre este filme é
uma possibilidade de trabalharmos com as diferenças . É acreditarmos, que
enquanto educadores, temos uma responsabilidade imensurável de ajudar a
construir uma história onde a diversidade de opiniões e a pluralidade sejam
respeitadas, não apenas em discursos demagógicos, mas principalmente na prática
cotidiana, colocando em primeiro plano a ética profissional e a valorização
humana.
Valquíria Leão
19/05/2013
Enquanto houver inimigos no imaginário coletivo, sempre haverá espaço para as maiores atrocidades. A história recente desse filme mostra que é questão de se ter alguém com tamanho carisma e ambição tirânica para fazer isso. Graças a Deus o mundo está relativamente preparado para dar um fim a esse tipo de abuso de poder.
ResponderExcluirA sociedade evolui, mas não convém acreditarmos tão piamente na nossa razão contemporânea. Basta pensar no que nossos antepassados tinham como certeza e veremos quão vítimas e cúmplices do nosso tempo somos. As certezas são das maiores armadilhas da idiotice humana...
O pior é que essa estupidez já nos levou aos trilhos nazistas. As pessoas acham que os inimigos imaginários são apenas justificativas para montar palanques, mas podem derrubar o palco com um tsunami de realidade.