quarta-feira, 19 de junho de 2013



"Mundializar significa favorecer as cooperações econômicas, sociais, culturais, tudo o que caminha no sentido da unidade solidária da humanidade."(MORIN, Edgar, pág. 17 - A minha esquerda)

Processo de "Mundialização"

Valquíria Leão

Com todo este manifesto ocorrendo, impossível não se posicionar e não estabelecer uma relação com tudo o que discutimos diariamente na universidade. A teoria aproxima-se mais uma vez da brutal realidade, na qual a voz do povo só é ouvida através de protestos, os quais são regados de sangue, de fúria, de injustiças e de discursos fundamentalistas vindos de uma parte muito pequena, a qual se interessa pelo silêncio do povo.

Antes de lançar qualquer crítica à polícia militar, faço uma ressalva: mais uma vez, na história da humanidade, vemos nitidamente o que Adorno cita em suas obras em relação à consciência coisificada. Infelizmente, a polícia, que tem como filosofia servir e proteger, hoje apenas segue às ordens de uma minoria que estabelece como norma a ordem. Ordem essa que tem como princípio o cuidado do patrimônio público, da permanência da boa conduta e do comportamento dócil. E eles cumprirão com seu dever, nem que para isso precisem ferir seus iguais, pois sua responsabilidade é eximida pela ordem de seus superiores. É triste pensar que uma classe tão desfavorecida quanto a dos policiais, não juntem-se ao restante do povo e lutem pelos mesmos ideais.

Apesar disso, percebo um facho de luz! Percebo um processo de “mundialização” tomando forma, criando asas em rumo a luta pelo bem comum. Em "A Minha Esquerda", de Edgar Morin, em um se seus textos ele aborda a questão sobre a compartimentalização das lutas do povo, por ideais que, apresentam-se segmentados. Ao contrário disso, vejo neste dia de hoje, algo novo acontecer. Dentro de suas particularidades, o Brasil todo se revolta contra as injustiças sofridas através da elite governante.

E a elite governante, muito bem representada por uma mídia que massifica, permanece protegida atrás de discursos retóricos. As reportagens veiculadas pelos meios de comunicação, apresentam como foco principal deste protesto o aumento das passagens do transporte público, tornando irrelevante tal movimento em função de R$ 0,20 centavos.

Aos que acreditam nesse argumento, peço que atentem aos reais objetivos que levaram a tal protesto: a fome, o desemprego, os baixos salários, a corrupção, a falta de atendimento de qualidade nos hospitais, a falta de segurança, a violência desenfreada, a desigualdade social que aumenta a passos largos, transcendem a meros R$ 0,20 centavos. O país do futebol é também o país que sedia a tristeza de um povo que, através de tantas injustiças apresenta um comportamento de revolta.

Segundo a nossa presidente, o comportamento do povo é passível de compreensão e entendido como um ato democrático. Sinceramente, penso que democracia não se resume tão somente ao direito de protestar. Democracia precisa ser entendido como o direito de ser ouvido e atendido, caso contrário, a lacuna existente entre o apelo do povo e a escuta paciente do governo, torna-se um espaço habitado somente pelo sentimento de revolta daqueles que são ignorados.

Quero deixar claro que sou contra a qualquer ato de violência ou comportamento agressivo, pois em meio a estes manifestos, muitas pessoas acabam por serem agredidas seriamente. No entanto, a agressão a que o povo se submete diariamente em filas de hospitais na busca por atendimento, na luta por um salário digno, no apelo por segurança e na procura por um espaço dentro da sociedade, é maior e mais lenta e fere mais do que corpos. A violência a qual o povo se submete diariamente, fere a dignidade, o respeito e a alma de cada cidadão.

Também ressalto aqui, que meu objetivo não é defender partidos políticos. Meu objetivo é defender ideias e ideias transcendem a ranços ideológicos, vão além de discursos. Vão ao encontro do que é real e necessário a cada indivíduo pertencente a esta sociedade. 

Não acho justo que lojas sejam depredadas, ônibus incendiados e prédios pichados. Porém, como afirma Levinas, para que haja justiça, os fatos não devem ser remediados, mas sim evitados. Punir não é sinônimo de justiça e sim, é sinônimo de que em algum momento o sistema falhou. A reação dos manifestantes apenas deixa claro a revolta de um povo desesperado, cego de valores e sedento de justiça. 

Encerro minha fala dando parabéns aos representantes do povo que, numa demonstração de coragem, vão às ruas com cartazes e suplicam em frente às câmeras por soluções para problemas socioculturais, os quais afetam a cada um dos brasileiros. Lamento pelo ódio que corrompe àqueles que, imersos à revolta, acabam por deixar que seu instinto fale mais alto do que sua razão.  

Penso que o povo tem capacidade de protestar de forma inteligente, estratégica e pacífica, pois através de um movimento organizado e bem liderado, acredito que se conseguem grandes vitórias. Atos de vandalismos apenas reforçam um comportamento que se equipara às atitudes de um governo que também age na mesma proporção em relação ao seu povo.





3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Este comentário foi removido pelo autor.

      Excluir
  2. A nossa classe política, acostumada a séculos de inércia, onde os capatazes entregavam um envelope fechado aos colonos e diziam que não poderiam ser abertos porque o voto era secreto (e isso foi quase na segunda metade do século XX, ainda) tiveram uma meia-lição: não adianta mais fazer qualquer coisa, a informação globalizada, mesmo no analfabetismo em língua portuguesa (são incapazes de ler e interpretar na maioria dos casos), abriu um pouco mais os olhos, e não adianta dizer qualquer coisa. Foi o lado bom, mas também não foi muito mais do que isso: todos deveriam estar ofendidos com o "calaboca" do governo, vertente moderna dos espelhinhos tupis. Por isso a lição foi só pela metade.
    Claro, eles ainda tentaram obter o "ouro" em troca. Rui Falcão quis ser o herói das massas e se saiu mal, porque eles, todos eles, isolados da realidade exterior, confundiram pesquisas compradas com real admiração e não viram que havia mais do que gritos de insatisfação, era um estresse causado pelo mau-caratismo. E a presidenta, que mudou a regra por decreto e vaidade, não pela língua em si. sorriu para o povo da forma mais cínica que eu já vi alguém sorrir depois do prefeito do Rio. Quem terá sido o professor?
    Eu fico,sim, indignado, quando alguém acha que o povo ter direito de falar é democracia, porque essa é a fixação dela: perseguição à opressão do regime, mesmo trinta anos depois. Não importa se a vida miserável de um bolsa-família isolado de outras reformas sociais é um símbolo de opressão ainda mais cruel, porque a boca é calada pelo medo de morrer de fome, ou de ver os filhos nessa situação. Ela foi a perseguida e persegue, e isso é uma ótima desculpa para dizer que se quer corrigir os males do passado. E os do presente, dona Dilma? Vai fazer como as votações do congresso, tudo resolvido em ordem? Vamos esperar mais cinquenta anos, então? Fora que é um tapa-buracos sem nenhuma piedade pela nossa indignação, manobra para desviar a atenção.
    O povo protestou, mas não vai muito além: eles nunca aprenderam o que fazer com o grito, só sabem soltá-lo. E ninguém se interessa em ensinar nada além! A mundialização pode significar também a coisificação da mente em escala global. Tudo depende de quão perversos seremos ao encarar os novos tempos....

    ResponderExcluir