A Minha Esquerda
No livro "A minha esquerda", Morin faz uma crítica reflexiva em relação aos partidos de esquerda que, originalmente apresentavam como objetivo a aspiração por um mundo melhor, a emancipação dos oprimidos, explorados, humilhados, ofendidos e a universalidade dos direitos do homem e da mulher. Este "a" esquerda nos dá a falsa ilusão de que todas as correntes libertárias, socialistas e comunistas, lutariam pelos mesmos fins, em busca de uma sociedade mais igualitária. No entanto, ao longo do tempo, estas correntes tornaram-se concorrentes entre si, demonstrando antagonismos e ambiguidade em suas filosofias.
A esquerda tornou-se incrédula, apresentando promessas ilusórias, onde sua única esperança é beneficiar-se do declínio da direita.
Segundo Morin, vivemos uma crise em que o capitalismo inerente a nossa época nos promete uma sociedade do conhecimento, no entanto, somos presenteados com conhecimentos dispersos e compartimentalizados, os quais nos impedem de relacioná-los de forma que possamos compreender os problemas globais que assolam nossa época.
A globalização e o desenvolvimento, ao mesmo tempo que nos propiciam progressos materiais de todos os domínios, provocam um subdesenvolvimento espiritual e moral. "Criam classes médias emancipadas, mas criam também novas e gigantescas misérias, a destruição das solidariedades e o aumento das desigualdades".
Morin propõe uma reforma na maneira de pensar a sociedade global, valorizando suas individualidades culturais em busca do desenvolvimento, através do envolvimento solidário, ao que ele dá o nome de "mundialização e desmundialização".
Tendo em vista que o capitalismo inerente a nossa época, avança de modo descontrolado, torna-se improvável que nossa sociedade se liberte de um sistema que corrompe com nossa busca por uma vida saudável, no entanto Morin sugere que passemos a conceber uma via de uma política da humanidade subordinando o bem-estar material à qualidade de vida.
A sociedade deve reconhecer-se como uma unidade, como partes pertencentes de um todo, não perdendo suas particularidades, mas assumindo uma postura de solidariedade em relação ao mundo em que está inserida.
O autor faz uma ressalva às iniciativas que são tomadas em todas as partes do mundo, sob todas as ordens econômicas, sociais, educacionais, políticas entre outras, porém essas iniciativas não dialogam entre si. Lutam por soluções para problemas individuais, os quais são indissociáveis à vida humana.
Partindo do pressuposto de que uma reforma democrática seja necessária, o autor reconhece a necessidade da multiplicação de universidades, as quais ofereceriam uma visão política, sociológica e econômica mais ampla aos indivíduos e uma reestruturação nas carreiras de administração pública que implicam uma missão cívica, considerando os valores morais e éticos quanto à benevolência, compaixão, sua dedicação ao bem público e sua preocupação com a justiça e igualdade.
Morin afirma que vivemos um tempo de regressão à barbárie. A barbárie causada pela falta de sensibilidade da técnica e do lucro desenfreado e essa fase só poderá ser contida através da consciência dos perigos mortais que a humanidade a ela está sujeita.
É essencial que retomemos as origens partidárias centradas no indivíduo (anarquismo), na comunidade (comunismo), na sociedade (socialismo) e na ecologia, sendo esta última uma nova forma de pensar a era planetária, visando um compromisso em restabelecer a aliança das antigas civilizações com a natureza. Sendo a Terra a nossa única morada, cabe a nós cuidá-la, preservá-la e nutri-la com afetividade, tendo a consciência de que o ecocídio seria o suicídio.
Algumas considerações
As relações de poder atingem silenciosamente a todas as instâncias do pensamento cada vez mais globalizado, desintegrando não somente a sociedade, mas principalmente os valores nela constituídos originalmente. O consumismo inerente a nossa época nos torna cegos de solidariedade, de fraternidade, de identidade e de afetividade com os nossos semelhantes e com a mãe Terra.
Os representantes do povo, que inicialmente tinham como filosofia a busca pela dignidade, perderam-se em meio a exploração do homem pelo próprio homem. O mundo está repleto mais de contingências do que de certezas e nossas incertezas sobrepõem a nossa fé. Ser solidário não é mais característica da nossa sociedade, no entanto apesar do excedente populacional, nos tornamos cada vez mais solitários.
Vivemos num mundo de miséria, mas não somente quanto ao sistema financeiro e sim a miséria de ética, de doçura nas relações e nas emoções, as quais são essenciais a vida humana. Mais do que conhecimentos tecnológicos, precisamos conhecer nosso próprio eu, na busca de reascender a esperança que habita os corações de cada ser, de cada sociedade, de cada nação. Somente a busca incessante, “não pelo melhor do mundos, mas sim por um mundo melhor” (Morin), tornará nossa sociedade mais humana e solidária.
Valquíria Leão