Crise da Racionalidade
Não pretendo justificar o
comportamento humano, nem dar uma resposta às questões que permeiam nosso
dia-a-dia, mas sim entender o porquê dessa crise que vivemos e fazer uma
reflexão sobre nosso papel como educador.
É fato que vivemos um tempo de
grandes conflitos, o qual eu denomino de crise existencial, pois o mesmo homem
que, tempos atrás encontrava explicações em Deus, para suas mais diversas
emoções, hoje percebe-se sozinho em um mundo que teoricamente pode resolver
tudo através da Ciência.
Não querendo minimizar as grandes
descobertas e a evolução tecnológica, a qual faz parte do nosso cotidiano,
questiono-me sobre até que ponto a própria Ciência poderá resolver conflitos
pessoais e individuais.
Chegamos em uma era em que, o
comportamento humano é analisado minuciosamente. São diagnosticados inúmeras
doenças e estas são tratadas com uma variedade imensurável de medicamentos, os
quais além de causar dependência, muitas vezes deslocam os indivíduos para uma
dimensão irreal.
Vivemos em um tempo em que parece
bastante fácil e apropriado diagnosticar o problema do outro e assim, criamos
uma falsa ilusão de que o conhecemos, porém penso que essa é uma questão bem
mais complexa.
Como educadora, percebo diariamente
uma grande insatisfação dos professores, alunos, pais e de todos os envolvidos
na relação ensino-aprendizagem.
Percebo claramente uma transferência
de responsabilidades e por vezes um desapego com a essência humana.
Escuto relatos de professores, os
quais procuram fazer um trabalho de qualidade, porém, diante da falta de
interesse do aluno em função de vários aspectos, procuram então a ajuda da
família do educando e esta, por sua vez, às vezes parece omissa ou impotente.
Observando esses relatos, entre
tantos outros que fazem parte do cotidiano escolar, arrisco-me a acreditar que,
vivenciamos de fato uma crise existencial, onde nem mesmo a Ciência será capaz
de desmistificar.
Não penso que o educador, o educando
ou a família sejam culpados, mas acredito que a maior característica dessa tal
modernidade, seja a falta de conhecer, mas não o outro e sim a si mesmo.
Passamos a vida tentando conhecer o
outro, porém não conhecemos a nós mesmos. Não abrimos mão do nosso tempo para
saciar a carência que temos daquilo que é essencial à vida humana: o eu.
Nesse mundo capitalista em que
vivemos, as pessoas se dedicam a viagens, passeios, festas, compram coisas o
tempo todo, passam em concursos e buscam incessantemente a felicidade, o sentido
para suas vidas. Se relacionam com várias pessoas e procuram no outro a
satisfação que somente encontrarão em si mesmas.
Penso que enquanto o ser humano não
dialogar com seu próprio eu interior, ele continuará trilhando um caminho de
incertezas e por mais que esteja na companhia de outras pessoas, sentir-se-á
sempre sozinho.
Enquanto ele não entender o motivo
da sua existência, o homem não perceberá que a vida é uma passagem e que suas
ações poderão deixar marcas naqueles que por aqui permanecerem.
Numa visão política e social, penso
que em função dessa crise, a humanidade caminha a passos largos para uma
degradação de valores, onde passa a valer cada vez mais, a lei de quem detém o
poder.
Não precisamos mais de bombas
atômicas, exércitos nas ruas, nem toques de recolher. A grande massa está se
exterminando, uns aos outros.
Há alguns anos atrás, na aula de
Filosofia de Educação, com o professor Marcelo Rezende Guimarães, foi proposto
que lêssemos o texto “Educação após Auschwitz”, de Theodor Adorno. Um texto
bastante crítico, polêmico e que nos reporta a um fato histórico em que
gostaríamos de esquecer: o Holocausto.
Adorno nos alerta para uma questão
crucial: que tipo de ser humano queremos ser e formar, pois, pior do que a
consumação da barbárie, são as razões que criaram a possibilidade para que ela
viesse a acontecer.
Nos tornamos seres irracionais
diante da nossa racionalidade. Lutamos como em uma guerra, por dinheiro,
beleza, posição social. Não respeitamos nossa saúde física e mental e o próximo
é nada mais do que o próximo.
Faço essa alusão ao texto de Adorno
e infelizmente, preciso admitir que os genocídios continuam a acontecer: nas
escolas, nas famílias, na sociedade em geral. E nesse rol de acontecimentos,
onde a ética é colocada em segundo plano, somos ao mesmo tempo vítimas e também
vilões.
27/04/2013
Não queremos formar ser humano nenhum, estamos preocupados com o dia-a-dia. Como disse um amigo meu, a boa vontade nos gestos não é do ser humano. Quando aparece é, infelizmente, uma honrosa exceção. Bem, eu diria, nesse contexto que, se não podemos ir pela regra, que as exceçöes se unam e mostrem a excepcionalidade dos seus gestos, no melhor sentido da palavra: mostrem que vale a pena resgatar justamente os valores que se degradam a olhos vistos.
ResponderExcluirA ciência pode encontrar padrões e explicar conceitos. É o homem que deve ler os livros e tentar entender, com a sua própria visão, seus semelhantes. Não há fórmula para a singularidade. Nem mesmo a física foi capaz de explicá-lá, quanto mais a imprecisão inerente às ciências humanas. Teorias, para aquilo que é único, são o atalho, jamais o caminho em si.