Educação após
Auschwitz
Theodor W. Adorno
Algumas
considerações
Adorno acredita que através da
Educação, possamos evitar que Auschwitz torne a acontecer, pois, segundo ele, é
através da primeira infância e do contato com o meio que o indivíduo forma sua
verdadeira identidade.
Nesse âmbito, é importante ressaltar
que o educador precisa repensar sua prática pedagógica a fim de não assumir um
papel autoritário, manipulador. Este comportamento faz com que o ser humano
reprima seus medos, seus sonhos, precisando tornar-se forte e corajoso diante
de uma sociedade que valoriza essa característica. O medo reprimido faz com que
o indivíduo aprenda a torturar e fazer com que outras pessoas também sintam
dor, assim orgulhando-se do seu feito numa espécie de narcisismo desenfreado.
Numa visão tecnicista o caráter
manipulador coisifica as pessoas, fazendo com que sua consciência torne-se
coisificada. O indivíduo manipulado apenas atende à ordens, não fazendo uso
racional de suas ações.
O avanço tecnológico que deveria
tornar-se um meio para uma vida digna, acaba por ser um fim em si mesma. A
técnica ocupa um espaço tão grande que torna as pessoas tecnológicas.
O autor cita como exemplo as pessoas
que projetaram o sistema ferroviário para conduzir as vítimas de Auschwitz com
maior rapidez e fluência. Não usaram o conhecimento tecnológico como um meio
para uma vida digna, mas sim como um fim em si mesmo, tornando irrelevante a
função para a qual foi projetada tal ferrovia.
Numa questão humanística e
espiritual, estas pessoas são despidas de amor, justamente por possuírem uma
consciência coisificada, onde representam o único amor que têm por máquinas e
equipamentos.
Na visão do autor, a tecnologia e o
autoritarismo, projetam pessoas incapazes de amar, porque são induzidas a
lutarem apenas por seus próprios interesses.
O ser humano precisa ter consciência
das razões pela qual assume determinados comportamentos, pois a tomada de
consciência torna-se mais apropriada do que o amor propriamente dito. Uma
criança que não tem esclarecimento dos fatos relativos ao mundo que a cerca,
torna-se ingênua e com facilidade tornar-se-á um ser facilmente manipulado.
O grande anseio é que as medidas
educacionais possam fazer com que seres humanos dignos não cumpram
silenciosamente as ordens determinadas por assassinos de gabinete ou ideólogos,
mas sim tenham a consciência de sua ação, para que não findem com sua própria
identidade.
À medida que o indivíduo torna-se
apenas cumpridor de ordens sem fazer questionamentos sobre sua execução, ele
estará também contribuindo para que as barbáries possam se repetir e sem receio
algum, deixará de preocupar-se com seu compromisso com a ética, pois tornou-se
tão dependente de normas que sua consciência coisificada o isentará de qualquer
responsabilidade.
Numa ordem social, Adorno afirma que
vivemos uma certa “claustrofobia do mundo civilizado”, pois ao mesmo tempo em
que as pessoas se integram cada vez mais à civilização, elas procuram fugir,
visto que a própria civilização desagrega os indivíduos, aniquilando com seu
potencial de resistência, identidade e suas qualidades, tornando-os agressivos
e irracionais.
Segundo Theodor Adorno, somente a
autonomia, o poder para a reflexão, a autodeterminação e a tomada de
consciência seriam o princípio para o não acontecimento de Auschwitz novamente.
É preciso que as pessoas reflitam sobre suas atitudes a fim de evitar barbáries
contínuas e possam dar sentido a suas vidas, valorizando seu semelhante.
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Reflexão crítica
Como educadora preciso acreditar na
mudança do ser humano e portanto, afirmo que “Educação após Auschwitz”, não
poderia ter outro título, senão este. Nós educadores, temos um poder
imensurável nas mãos, que é o de levar esclarecimento às pessoas que cegamente
fazem parte dessa sociedade que, ao mesmo tempo que é tão plural, mostra-se tão
individualista.
O ser humano está em busca de sua
identidade, a qual, silenciosamente tem sido esmagada por uma globalização que
promete uma vida mais digna, mas que ao contrário corrompe com a essência
humana.
Hoje vivemos uma era em que a
informática, por exemplo, deveria ser um meio para que pudéssemos realizar
nossas atividades com maior eficácia e rapidez, a fim de que nos sobrasse tempo para desfrutar daquilo que é indispensável à vida humana: as relações
interpessoais e o contato com a natureza. No entanto, ela torna-se a cada dia
um fim em si mesma. As pessoas passam horas em frente ao computador, e na
maioria das vezes seus contatos são virtuais. As relações humanas estão cada
vez mais precárias, o diálogo é racionado e a qualidade de vida piora a passos
largos.
Numa visão capitalista, as pessoas
trabalham incansavelmente para adquirir coisas deixando de dar atenção àqueles
que fazem parte de sua vida afetiva, pois precisam fazer parte de uma
civilização homogênea. Desta forma, com o objetivo de suprir sua ausência, elas
buscam a solução dos problemas através de bens materiais, os quais lhes custam
mais um boa quantia de trabalho dedicado.
E aqueles, os quais, por inúmeros
motivos não tiveram a oportunidade de ingressar a esse mundo capitalista na
posição de consumidor, só os resta revoltarem-se contra o sistema tornando-se
indivíduos a margem da sociedade, colaborando, muitas vezes para o aumento
gradativo da violência.
As escolas citam em seus Projetos
Político Pedagógicos que pretendem formar cidadãos críticos e libertos, porém
preparam os indivíduos para o mercado de trabalho e nada mais. As pessoas são,
de fato, formadas para o mercado de trabalho e não para o mercado de
conhecimento de si e do mundo. Elas cumprem exatamente as atribuições de seus
cargos e não questionam sobre valores. Assim tornam-se completamente livres de
qualquer compromisso, pois executam apenas ordens de superiores.
Fazendo uma análise dessa estrutura,
penso que a educação poderá sim, trazer mudanças positivas para uma tomada de
consciência em relação a essa crise em que vivemos, mas acredito que antes de
focar nossas expectativas no educando, não podemos esquecer que é através do
educador que conseguiremos aliados para que tal mudança se efetive.
Acredito que o educador precisa ser
valorizado enquanto ser humano, a fim de que sua postura mude em relação à sua
prática educativa. Ele precisa conhecer-se e acreditar em si próprio, evitando
assim que barbáries tornem a acontecer e que crianças sejam vítimas de ranços
ideológicos.
Penso que o educador é o único
profissional que ainda tem autonomia para transformar essa realidade, pois sua
função o permite dialogar, criar, orientar e fazer com que os educandos estejam
cientes do mundo que os cerca, tornando-se verdadeiramente críticos.
Desacreditar, é uma característica
desse mundo de incertezas que vivemos, mas penso que, a medida que soubermos
administrar uma instituição, de forma coerente e justa, o caminho começa então
a ser construído para uma longa caminhada em rumo à mudança.
Valquíria Leão
05/05/2013
Como eu disse anteriormente, é possível ser rico e ao mesmo tempo miserável. O capitalismo em si, eu digo isso com frequência, não é o problema, nenhum sistema é bom ou ruim, até que seja aplicado pelos homens; O problema é evidente: os homens são o único meio de aplicar os sistemas econômicos até que se prove que há alguma outra espécie entre nós. E eles os aplicam MUITO mal.
ResponderExcluirTanto no capitalismo quanto no socialismo, os dois maiores sistemas desde o final do século XIX, a mentalidade administrativa, fria em seus conceitos, por mais que se camufle, é como as teorias econômicas que regem qualquer instituição maior: aproxima-se da psicopatia, quando não é declaradamente organizada dessa forma. É o que permite, aliás, que psicopatas se saiam tão bem nesse meio.
Mais do que pensar no sistema como essência, é preciso ver como estruturamos a nossa atuação. Sem humanitarismo continuaremos atrelados a bolhas econômicas e a campos de concentração para aqueles que não aceitam um suposto bem comum... De poucos!