A
Complexidade da Vida Moderna
Valquíria Leão (19/05/2013)
O exercício de pensar sobre nossas ações e buscar
respostas para uma série de atitudes que assumimos ao longo da vida, parece
fácil, visto que o protagonista dessa história somos nós mesmos. Nossas
virtudes, defeitos, aspirações, frustrações, angústias, alegrias, prazeres e
decepções, enfim, todas as nossas emoções deveriam fluir naturalmente, porque
são a essência do nosso ser, da nossa identidade e interpretá-las não poderia
apresentar tamanho desafio.
O fato é que, a complexidade do mundo em que vivemos e o
turbilhão de informações que recebemos diariamente, nos obrigam a fazer parte
de uma civilização a qual nos molda de acordo com suas necessidades. Nossas
características enquanto ser pensante, criativo, autônomo, capaz de tomar
decisões, muitas vezes deixam de revelar quem realmente somos ou gostaríamos,
para seguir a risca uma cartilha que nos foi dada desde o momento em que
nascemos, a qual rege nosso comportamento diante de uma sociedade que não
ajudamos a construir (pelo menos não de forma consciente).
É lamentável saber que o homem usou sua razão com o
objetivo de dominar; e desta vez, não estamos falando de territórios, mas sim
do domínio da mente humana. Ao perdermos nossa identidade, perdemos a nossa
essência, vivemos na escuridão, procurando um refúgio, um facho de luz, onde
possamos por um momento encontrar nosso próprio eu, a fim de dar um sentido às
nossas vidas. Estamos, como já disse Bauman, sozinhos em meio à multidão e é
irônico pensar que, com o excedente populacional em que vivemos, estamos cada
vez mais isolados.
Para citar Adorno, é ambíguo pensar que um processo
civilizatório faça com que as pessoas, ao mesmo tempo que procuram inserir-se,
queiram fugir, apresentando uma espécie de “claustrofobia da civilização”. Esse
palco faz com que as pessoas cansem de encenar, de representar um personagem
que não condiz com sua essência humana e assim percam a paixão de viver. Por
vezes ouvimos notícias de pessoas que não aguentaram a pressão da sociedade e
deram fim a própria vida. No entanto, partilhamos nosso dia-a-dia com inúmeras
pessoas que, abandonaram sua existência, mas continuam trilhando um caminho de
desmotivação e incertezas. São essas pessoas que, aos meus olhos, contribuem
para que o capitalismo inerente a nossa época, vença com honras ao mérito.
Há algum tempo reflito sobre estas questões e
indubitavelmente, as leituras referentes a Adorno, Bauman, Habermas entre outros pensadores,
trouxeram um pouco mais de clareza aos meus questionamentos. Não ousaria dizer
que encontrei respostas para as minhas dúvidas, mas posso afirmar que sinto-me
mais confiante em saber que outras pessoas pensam na possibilidade de um futuro
em que o indivíduo tenha consciência de sua verdadeira condição humana.
Apesar de ter a visão de que o mundo é cruel, que as
pessoas utilizam a racionalidade apenas para seu bem próprio e que o
capitalismo acaba dia após dia com nossas expectativas de vida, eu continuo
acreditando que pessoas de bem, ainda possam deixar um legado para essa
civilização que não inspira nenhum comportamento civilizado.
Quanto a minha prática educativa, eu tenho mais do que
razões para tentar fazer com que meus alunos sejam conhecedores da verdade, que
eles possam conhecer outras realidades e que ampliem sua noção de mundo,
percebendo que existem pessoas iguais a nós e que lutaram para uma vida mais
digna.
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ResponderExcluirConquistamos o mundo, alcaçamos, enfim, o topo de um círculo polar. E nunca tivemos tão pouco a comemorar. A tecnologia é incrível, mas a era digital não teve tempo de se adaptar a ela. A rede à qual estamos conectados é uma ampliação do meio em escala global. E assim, como qualquer meio, precisa de regras de interação. E é aí que reside o grande problema: se temos tantos países e tantas culturas, qual poderia ser?
ResponderExcluirinfelizmente, em vez do maravilhoso potencial de ampliar horizontes, a internet está fazendo com as diferenças a mesma coisa que fez com as distâncias físicas: junta tudo e aproxima o que é divergente ao mínimo denominador comum. Em suma, além de dar uma falsa impressão de proximidade, engana-nos com uma ideia de pluralidade mais fajuta ainda. O mundo caminha para grandes perdas de identidade, que podem custar caro, como em qualquer caminho da evolução: aquilo que se superespecializa não é versátil o bastante para se adaptar a grandes mudanças. É um perigo que a maioria ignora. Estamos mais próximos, mais muito mais confusos em nossos parâmetros e perdidos em nos próprios valores que alguém um dia nos ensinou. Isso quando chegamos a aprender algo claro dos que vieram antes de nós, e eu me considero agraciado com essa sorte. Em vez de intercambiá-los, aprendendo que o outro tem algo a oferecer, todos os lados estão abdicando dos seus princípios em prol da dita "globalização". Acabam tornando-se, como disse um cientista, cujo nome eu não lembro, que chamou seus colegas de "idiotas esféricos", ou seja, trogloditas independente do ângulo pelo qual se olhe. Acho que globos não são um bom caminho para o global, não é mesmo?
Enfim, as pessoas insistem em culturas mais atrasadas e culturas mais modernas, quando na verdade isso só faz sentido com aquilo que evolui, relativamente, dentro de um contexto, com pontos de referência tangíveis entre si. No mais, estamos ignorando as particularidades do pensamento de um povo que, independente do número de indivíduos que tenha, pode ter muito a ensinar. Jesus não foi um só? E há quem acredite em verdadeira superioridade cultural, aproximando-se perigosamente de ideologias cruéis e que não precisam ser mencionadas, e o pior é que encontramos quem os ouça. Enquanto isso, nossas próprias crenças perdem seus contornos definidos. O que será do dia em que esses falsos pregadores atingirem um número ainda inimaginável de massas e abandonarem-nas depois? Aí talvez não haja google que possa responder a tempo, porque os que tentaram avisar-nos do perigo iminente podem ter saído de circulação há muito tempo, muito além das páginas dinâmicas da primeira fila de um site de pesquisa. E nossa preguiça mental estará acomodada demais para ir além. E a ausência de respostas imediatas pode ser fatal. A sociedade em massa terá desaprendido a pensar, pela falta de parâmetros de distância e diferença, e tudo será longe demais para caminhar com os próprios pés.
mais = mas (não sei como eu troquei as coisas)
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